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Do jeito que vai indo, a Amazon e o Google podem não contribuir com nosso conhecimento no futuro

janeiro 8, 2013

A Amazon se preocupa com o conhecimento de seus clientes ou só quer ganhar dinheiro? A Amazon quer acabar com todas a livrarias físicas? E o Google, tem o direito de privatizar o conhecimento? A função de digitalizar todos os livros de bibliotecas pelo mundo é função do Google ou do Estado?

Não sei responder estas perguntas, mas vou pensar sobre. O tema foi dicutido pelo editor franco-americano André Schiffrin no programa Roda Viva da TV Cultura nesta segunda-feira 07/jan. Foi muito interessante, pois até o momento não tinha pensado a respeito do poder das empresas de tecnologia direcionado exclusivamente à função comercial.

Segundo André, as livrarias estão diminuindo e o mundo está infestado de livros publicados independentemente, sem nenhuma edição. Para ele, esta tendência é perigosa, pois o atual uso da internet caminha para o mesmo destino do rádio e televisão. André explicou que no início de cada uma destas tecnologias, o objetivo era a cultura e o conhecimento. Porém, sem controle e limites impostos acabaram se tornando o que são hoje, basicamente com razão comercial (“salvo excessões que não são a solução” ele disse).

Quando a internet foi criada, na Finlândia por exemplo, o seu uso foi incentivado com a proposta de não haver nenhum vínculo comercial. Por falha na administração do crescimento de seu uso, vemos no que deu globalmente. Para André, a publicação independente na internet é válida somente para países onde não há liberdade de expressão ou há acesso restrito à rede. Já em países totalmente globalizados, esta publicação em massa é prejudicial.

O mercado editorial existe para selecionar o que será publicado ou não, tendo como fundamentos o conhecimento, informação, ou entretenimento. “Uma biografia de uma vida muito interessante pode ser publicada de forma equivocada, sem estimular a leitura e caindo no esquecimento”.

Para André, as grandes editoras mundiais atualmente têm como objetivo único e final a lucratividade, sem considerar o conteúdo de suas publicações. Estas empresas raciocinam anualmente e financeiramente, e não na durabilidade do livro e suas contribuições para as pessoas.

Sobre a Amazon e o Google, André explicou que não concorda com o rumo que as empresas estão tomando, sem controle algum. Segundo ele, a Amazon já declarou que quer eliminar as livrarias físicas e também eliminar a edição (e editores), e é preciso combater este tipo de monopólio, acredita André. Ele também disse que a Amazon já tentou implantar a listagem de editores somente diante pagamento, o que a pressão contrária consegue evitar por enquanto.

Observando a lista de livros físicos ou digitais mais vendidos nos EUA percebe-se que são muito poucos títulos vendidos em grande quantidade. “É ótimo para a Amazon, mas prejudica a opinião pública”, disse André. Leis e controles para a quantidade e qualidade de editores também não existem, prejudicando a qualidade das publicações em geral.

O Google também caminha sem limites, sem leis e regulamentações contra o monopólio de informação. Na Europa por exemplo, o Google não paga impostos, e Schiffrin questiona por que algumas pessoas têm o direito de pagar menos taxas. Outro exemplo dado pelo editor foi o objetivo do Google de digitalizar todos os títulos do mundo. A segunda maior biblioteca da França já está participando do processo, e André não concorda com a “privatização da história e do conhecimento, isto deve ser propriedade do Estado”.

Para ele, as empresas digitais têm papel importante neste contexto, porém não podem ter a propriedade destas informações. A internet é válida, e é preciso criar regulamentações para não acontecer o que houve com o rádio e televisão. O grande fator complicador pra André é que a rede está nas mãos de quem quer ganhar mais dinheiro que os outros, “e é preciso reduzir esta pressão”. Senão, as chances do Google cobrar pela leitura dos títulos digitalizados ou a Amazon cobrar os editores para poderem vender suas obras são muito altas.

Indo contrário a este movimento, Schiffrin fundou uma editora sem fins lucrativos, a New Press, na qual um grupo de editores mantém o foco na qualidade, na educação e na opinião pública sem a preocupação se o livro fará sucesso financeiramente ou não. Segundo ele, há livros que começam a ser comprados após 20 anos de sua publicação.

André cita alguns bons exemplos de manutenção da cultura sem objetivos de lucratividade. Na França, após a segunda guerra mundial, preocupado com a invasão de filmes de Hollywood, o governo inseriu uma pequena taxa nos ingressos de cinema para subsidiar filmes nacionais e salas de cinema independentes. Desta forma, hoje na França existem centenas destas salas com filmes de todo o mundo, e não somente com as poucas opções de filmes americanos. A razão financeira limita a quantidade de opções. “Em uma semana, é possível assistir mais filmes coreanos em Paris do que em um ano em Nova Iorque“.

Outro exemplo na Noruega, o governo também subsidia a cultura do país. No início dos anos 1900 os cinemas foram municipalizados, se tornando sem fins lucrativos e permitindo a escolha de filmes. Hoje na Noruega o governo continua incentivando a cultura nacional, subsidiando as demais mídias para escolherem o que publicar e expor suas opiniões, e não selecionar o conteúdo somente pelo potencial de vendas.

O canal de televisão inglês BBC também se beneficia de taxas para o bem de todos. A empresa recebe incentivos diretamente, sem passar pelo governo para manterem suas transmissões. Desta forma, o canal está há décadas independente do governo, e sem propagandas.

Como último exemplo, André conta que na Suécia existe uma cooperativa de editores com 20 mil cooperados contribuindo anualmente. “Se 3 mil comprarem um livro de outro editor, a cooperativa já se mantém em funcionamento”.

André defende este tipo de atuação governamental. “Se o Estado faz, é ditadura. Se o Google faz é progresso”. Nos exemplos citados, a diversidade de conteúdo das mídias é enorme, e não há discussão simplesmente porque não há influência do Estado, é apenas um meio facilitador.

Finalizando, Schiffrin comenta que toda nova tecnologia pode ser utilizada de forma errada somente para ganhar dinheiro, e é preciso ter cuidado. É necessário debater o futuro da internet, o que não é feito ainda, para que não acabe como as demais mídias. Além disso, ele enfatiza a importância do mercado editorial, dizendo que acredita “não termos muitos escritores atualmente que poderiam ser lidos no século seguinte, como antigamente”.

Defendendo a leitura de livros, físicos ou digitais, André comenta que “os livros ainda são a única maneira de as pessoas passarem um bom tempo observando um raciocínio sendo desenvolvido”, e desta forma, o problema será o pouco tempo investido pelos novos leitores a formularem seu raciocínio posteriormente. Os livros também servem “para contar às pessoas sobre as ideias que elas precisam para pensar melhor a respeito do futuro”.

Pensando sobre o que foi discutido, acabei concordando que é preciso tomar mais cuidado com o poder das empresas de tecnologia. Sou totalmente a favor de seu crescimento, porém, como a biblioteca da França, caso o Google resolva inserir publicidade nos livros, ou vender o contato de perfis de leitores, não há nenhum limite no contrato. É preciso sim antecipar estes problemas mesmo acreditando que não acontecerão (e eu acredito).

No caso da Amazon, não concordei com o objetivo de terminar com o mercado editorial. Se a função de um editor é se preocupar com a diversidade de escolha e opinião pública, deve continuar existindo. Sobre a publicação independente exagerada na internet, já é um fato e sou a favor. Creio que é possível a existência de um mercado de títulos editados e outro mercado gratuito e independente. Neste último, os únicos prejudicados serão serão os milhares de autores a espera de audiência (como este blog).

Agora, quem começará a discussão política proposta por Schiffrin para cuidar do futuro da internet? Será que é possível existir esta pauta avaliando as poderosas Amazon e Google? Se sim, será possível aplicar os limites propostos?

Ou o destino da internet já está fadado à publicidade e comércio como o rádio e TV?

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3 Comentários leave one →
  1. Elder de Santis permalink
    janeiro 10, 2013 09:20

    Bom dia, Marcelo.
    Como observador da vida, apenas, respondo a sua pergunta: o futuro da internet é mesmo do rádio e da tevê: publicidade e comércio, com o requinte de cobrarem assinatura. Acho até que já é assim, pois pagamos por conteúdos que queremos ter.

    O mais grave seria a privatização da cultura ( = todo saber humano ). O saber não tem dono e na Idade Média a igreja tentou-se apoderar-se dela, mas não conseguiu. Agora, nas mãos de Google ou Amazon, com o ardil de proteger ou preservar o acervo, teremos que pagar para aprender? Ou tais empresas liberarão o acesso gratuito ao conteúdo? Ou terão o acervo “free” e o “pay-per-view”, como as empresas de TV a cabo?

    Não concordo que uma empresa tenha o monopólio de um alimento modificado geneticamente. Certo o governo brasileiro quando quebrou a patente de medicamentos, criando os “genéricos”, pois barateou a saúde.

    Setores como energia, telefonia e abastecimento de água jamais podem estar sob controle privado, da mesma forma como o controle do conhecimento, conforme discorre em seu artigo.

    Quando ao futuro da internet, já está traçado…

    Grande abraço!

    • janeiro 12, 2013 11:56

      Oi Elder, obrigado!

      Tenho uma dúvida quanto ao controle privado comentado por você.

      Nos casos de privatização é bem-vindo, não?
      (claro, contando com o conceito e desconsiderando interesses)

      Pois o governo não tem capacidade de operar e gerenciar todos estes recursos, portanto o “arrendamento” para quem sabe tocar o negócio é válido, não?

      Grande abraço,
      Marcelo.

      • Elder de Santis permalink
        janeiro 14, 2013 16:24

        Oi Marcelo.
        Há setores ém que o setor público pode coexistir com o setor privado, como é hoje com escolas e hospitais. Com bancos, não precisa mais que o Banco do Brasil. Porém, setores que seriam de “segurança nacional” não devem estar sob o jugo do capital privado, que formam cartéis e formam uma ditadura às avessas. Me corrija se eu estiver errado: em 2001/2002 houve a privatização de setores de energia elétrica. Logo em seguida, um racioanamento de energia, que culminou com um aumento abusivo das tarifas. O povo, acuado pela privação (=racionamento) aceitou o aumento em questionar. Na época, houve aumento porque o consumo diminuiu rsrsr e alguem preceisava do lucro. No ano seguinte, não houve racionamento. Nem aumento das chuvas, nem se constroi usinas de grande porte em um ano. Pergunto: por que subiu o custo? Por que racionou? Por que não houve mais racionaemnto nos anos seguintes?
        Com a tefefonia foi a mesma coisa, com o diferencial que hoje há linhas sobrando. Mas confira os preços das tarifas: abusivo.
        Enfim, setores de “soberania nacional” devem ficar com o governo; o que não for, a quem possa gerenciar. Conhecimento e cultura: direito de todos, gratuito…rsrs

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